terça-feira, 29 de agosto de 2017

Paisagens simbólicas do Abrigo Santa Marta e da Chapada Diamantina (Bahia)

Uma leitura ampla e múltipla empreendida pelo imaginário da natureza e de uma paisagem singular nos remete aos primórdios da civilização humana e da evolução da Terra. Geopoética da gruta, do morro, da estrada. De início, essencialmente um conhecimento das manifestações imagéticas de pinturas rupestres – apontando intrínseca relação que define o homem como ser cultural – e diversos espeleotemas por quase toda a boca da gruta criam paisagens simbólicas e compõem narrativas visuais das mais variadas. A importância de lugares sagrados e tão raros se dá aos poucos.
A riqueza que se faz presente num local situado no município de Iraquara (BA), próximo ao Parque Nacional da Chapada Diamantina, revela, além das formações espeleológicas e das marcas de povos primitivos, um importante sítio arqueológico, testemunho mais autêntico da cultura humana no centro da Bahia. As imagens formam um verdadeiro quebra-cabeça. Juntas, a paisagem natural cárstica e a arqueologia encontram-se numa harmonia que se situa tanto no plano simbólico como no plano material, apontando intrínseca relação entre ocupação humana e grutas.
Vê-se neste (per)curso de caatinga baiana, além de pequenos muros e cercas de pedra (construídos pelos escravos no período colonial), formações naturais que propõem alegorias: um altar, uma multidão, uma formação que sugere a mais moderna das esculturas na entrada. Que tal, talvez, uma habitação subterrânea com orifícios para a claridade? Ou ainda, a metáfora de um mundo sensível e inteligível simbolizado pela sombra e pela luz? Lugar de refúgio ou de esconderijo, o Abrigo Santa Marta e suas figurações possibilitam permear o pensamento entre a racionalidade científica da gênese hidrogeoquímica e da vivência topofílica (ou topofóbica) do contato com a natureza. É caminhando com o olhar que se chega a uma primeira síntese do patrimônio geológico, espeleológico e arqueológico do local. Para mim, a experiência é das mais significativas.
De acordo com Beltrão (et al., 1988), a datação do uso de áreas cársticas na Bahia por grupos pré-históricos coincide com a de áreas cársticas dos sítios do Parque Nacional da Serra da Capivara, variando entre 57.000 e 6.500 AP, o que faz com que tais valores (embora não conclusivos) sejam considerados os mais antigos das Américas. São muitos os vestígios arqueológicos nas grutas próximas ao Parque Nacional da Chapada Diamantina, em especial na gruta Abrigo Santa Marta e na Lapa dos Caboclos, ambas em Iraquara. A pintura rupestre e a arte primitiva, ainda que em parte decifradas, expressam os valores e as ideias de sociedades extintas. O pintor pré-histórico usava a cor, o plano, o relevo e os movimentos nas suas pinturas, evoluindo nos estilos que vão do realismo figurativo à geometria das formas. As pinturas rupestres se destacam em todo levantamento espeleológico devido ao apelo visual e por mostrar ocupações pretéritas.
Nesse panorama, a sensibilidade da imaginação deve ser aguçada. Pergunto a um morador da região sobre o que ele acha da gruta mais próxima e para meu espanto ele não a conhece. “Escuto histórias, causos” que envolvem as representações pictóricas e o imaginário coletivo, me responde. Mas tem, antes de tudo, “um pouco de medo”. De fato, muitos são os aspectos fantasmagóricos na gruta. Basta um pouco de fantasia no pensamento. Pouco distante dali, no município de Morro do Chapéu (BA), vivia até a década de 1970, cerca de vinte famílias nas grutas areníticas, sendo que uma delas era destinada aos rituais de sacrifícios de pessoas que eram aprisionadas nas redondezas. Diante da prática medonha, a comunidade foi dispersa pela polícia e os líderes levados ao manicômio de Salvador, como relata Marechal Rondon (LINO, 1989).
O ar dentro da gruta é puro; a temperatura, a depender da menor ou maior intensidade de circulação do ar, tem caráter dinâmico. Encontram-se morcegos, conchas de caramujos da família Strophochelidae outrora carreadas pelas águas, ossadas de fauna acidental e troglóxenos (animais que, apesar de serem encontrados de forma regular nas cavernas, não são exclusivamente destes locais). Gota d’água por gota d’água, há milhares de anos, as paisagens cársticas e o relevo que envolvem grutas e cavernas são moldados. A marcação do tempo geológico não se dá por relógios.
Num universo como o das cavidades naturais, onde cada centímetro de formação espeleológica pode ter levado centenas de anos para existir, o tempo é amplo e quase infinito. Há variedade de aspectos morfológicos no Abrigo Santa Marta, a saber: paredes rochosas, fendas, estalactites e estalagmites, solo arenoso e argiloso, acúmulo de detritos orgânicos, guano de morcegos, represas secas de travertinos (que formavam pequenos lagos) e centenas de pinturas rupestres, incluindo formas humanas e zoomórficas, desenhos de círculos, de uma roda e de um sol voltados para o leste, peixes, répteis e mamíferos. Tanto fora como dentro da gruta, pequenas marmitas de erosão, morrotes areníticos erodidos e lapiás alveolares que lembram pilões. A parede calcária com pequenos buracos serve de morada para pássaros, morcegos, aranhas e opiliões. Um ecossistema perfeito, intocado, protegido por lei e pelos moradores locais.
Quase sempre permeia nas cavernas uma relação dialética entre bem e mal, dia e noite, sagrado e profano. Nas profundezas espeleológicas, a insuportável beleza das “estátuas” e flores de pedra, cortinas e colunas, é, para muitos, prova irrefutável da existência de um ser onipotente. Para outros, a perfeição do trabalho artesão diabólico ou mera ação da natureza. O fato é que, independentemente de explicação, a beleza comove em suas variadas formas e nos convida à exploração consciente. O enfoque fenomenológico pode trazer elementos para análises amplas de paisagens cavernícolas permeando racionalismos técnicos, científicos e econômicos e exercitando subjetividades na busca por um mundo melhor.
As questões que envolvem grutas e cavernas são controversas. Se por um lado se observam problemas de degradação e/ou atividades desorganizadas em algumas, por outro, vê-se a possibilidade de elaboração de plano de manejo espeleológico e de capacitação de agentes capazes de monitorar as atividades de visitação e preservação. Um plano de ação voltado ao turismo em sítios arqueológicos, grutas e cavernas necessita abranger diretamente todos os segmentos da atividade de modo participativo, como por exemplo, população local, turistas, professores, pesquisadores, guias especializados e demais atores sociais.
Considera-se a percepção humana como um pré-requisito para a obtenção de diferentes níveis de conscientização ambiental. Atuando em conjunto com os conhecimentos populares e científicos, sabe-se que esses elementos mostram forte potencial para que se promova a conservação da natureza. Como atividade consciente, o turismo é uma forma usada por visitantes de áreas especiais e protegidas, permitindo a percepção do ambiente e, desta maneira, a interpretação das áreas. Em maior ou menor intensidade, a interpretação gerada pela percepção ambiental é fator determinante no nível de conscientização dos visitantes, podendo alargar os horizontes e reduzir o nível de impactos negativos dentro de grutas e cavernas (HANAI; SILVA NETTO, 2005).
O Abrigo Santa Marta ainda não é aberto à visitação pública. Não por acaso, para que ocorram atividades turísticas é necessário muito planejamento, sendo também fundamental que aconteçam atividades de educação ambiental desenvolvidas no contexto do ecoturismo e do espeleoturismo. As práticas educativas devem focar nas propostas ligadas à questão do pertencimento. Um público bem específico se interessa por esse tipo de turismo. Entretanto, de antemão, deve-se reconhecer que grandes quantidades de pessoas ou grupos pequenos de visitantes (por ventura) insensíveis e com dificuldades de abandonar os hábitos urbanos (ou pelo menos não levá-los para a natureza) podem danificar os aspectos sobre o qual se sustenta o patrimônio espeleológico e arqueológico, tais como: formações espeleológicas, vegetação circundante, fauna e o inestimável testemunho espiritual de ancestrais representado pelas pinturas rupestres. Por isso, faz-se necessário ampliar a consciência da importância desse tipo de patrimônio continuamente, criando instrumentos educacionais e técnicos que sirvam efetivamente para a sua conservação.

REFERÊNCIAS

BELTRÃO, M. C. M. C.; DANON, J. A.; DORIA, F. A. M. A. Datação absoluta mais antiga para a presença humana na América. Rio de Janeiro: UFRJ, 1988.

HANAI, F. Y.; SILVA NETTO, J. P. Percepção e conscientização ambientais: alternativas para a preservação das cavidades naturais do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR). In: Simpósio Nacional sobre Geografia, Percepção e Cognição do Meio Ambiente. Anais... Londrina: UEL, 2005.

LINO, C. F. Cavernas: o fascinante Brasil subterrâneo. São Paulo: Editora Rios, 1989.

Muro de pedras próximo ao Abrigo Santa Marta, construído no período colonial.

Parede calcária do Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Pórtico da gruta Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Pórtico da gruta Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Aspecto interno do Abrigo Santa Marta. Estalactites.

Coluna. Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).



Travertino, estalactite e estalagmite no interior do Abrigo Santa Marta.

Conchas de caramujos da família Strophochelidae outrora carreadas pelas águas.


Aspecto da parede calcária com destaque para algumas pinturas rupestres (bovídeos).

 



Zoomorfos, grafismos e formas geométricas. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Zoomorfos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Zoomorfos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).



Zoomorfos e grafismos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Zoomorfos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).


Aspecto da parede calcária com destaque para algumas pinturas rupestres (grafismos).

Grafismos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).



Zoomorfos, grafismos e mãos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).




Paisagens do Vale do Capão, Chapada Diamantina (Bahia).
Fotos: Joviniano Netto. 24.08.2017.

Joviniano Netto. Foto: A. Rocha (2017).