terça-feira, 29 de agosto de 2017

Paisagens simbólicas do Abrigo Santa Marta e da Chapada Diamantina (Bahia)

Uma leitura ampla e múltipla empreendida pelo imaginário da natureza e de uma paisagem singular nos remete aos primórdios da civilização humana e da evolução da Terra. Geopoética da gruta, do morro, da estrada. De início, essencialmente um conhecimento das manifestações imagéticas de pinturas rupestres – apontando intrínseca relação que define o homem como ser cultural – e diversos espeleotemas por quase toda a boca da gruta criam paisagens simbólicas e compõem narrativas visuais das mais variadas. A importância de lugares sagrados e tão raros se dá aos poucos.
A riqueza que se faz presente num local situado no município de Iraquara (BA), próximo ao Parque Nacional da Chapada Diamantina, revela, além das formações espeleológicas e das marcas de povos primitivos, um importante sítio arqueológico, testemunho mais autêntico da cultura humana no centro da Bahia. As imagens formam um verdadeiro quebra-cabeça. Juntas, a paisagem natural cárstica e a arqueologia encontram-se numa harmonia que se situa tanto no plano simbólico como no plano material, apontando intrínseca relação entre ocupação humana e grutas.
Vê-se neste (per)curso de caatinga baiana, além de pequenos muros e cercas de pedra (construídos pelos escravos no período colonial), formações naturais que propõem alegorias: um altar, uma multidão, uma formação que sugere a mais moderna das esculturas na entrada. Que tal, talvez, uma habitação subterrânea com orifícios para a claridade? Ou ainda, a metáfora de um mundo sensível e inteligível simbolizado pela sombra e pela luz? Lugar de refúgio ou de esconderijo, o Abrigo Santa Marta e suas figurações possibilitam permear o pensamento entre a racionalidade científica da gênese hidrogeoquímica e da vivência topofílica (ou topofóbica) do contato com a natureza. É caminhando com o olhar que se chega a uma primeira síntese do patrimônio geológico, espeleológico e arqueológico do local. Para mim, a experiência é das mais significativas.
De acordo com Beltrão (et al., 1988), a datação do uso de áreas cársticas na Bahia por grupos pré-históricos coincide com a de áreas cársticas dos sítios do Parque Nacional da Serra da Capivara, variando entre 57.000 e 6.500 AP, o que faz com que tais valores (embora não conclusivos) sejam considerados os mais antigos das Américas. São muitos os vestígios arqueológicos nas grutas próximas ao Parque Nacional da Chapada Diamantina, em especial na gruta Abrigo Santa Marta e na Lapa dos Caboclos, ambas em Iraquara. A pintura rupestre e a arte primitiva, ainda que em parte decifradas, expressam os valores e as ideias de sociedades extintas. O pintor pré-histórico usava a cor, o plano, o relevo e os movimentos nas suas pinturas, evoluindo nos estilos que vão do realismo figurativo à geometria das formas. As pinturas rupestres se destacam em todo levantamento espeleológico devido ao apelo visual e por mostrar ocupações pretéritas.
Nesse panorama, a sensibilidade da imaginação deve ser aguçada. Pergunto a um morador da região sobre o que ele acha da gruta mais próxima e para meu espanto ele não a conhece. “Escuto histórias, causos” que envolvem as representações pictóricas e o imaginário coletivo, me responde. Mas tem, antes de tudo, “um pouco de medo”. De fato, muitos são os aspectos fantasmagóricos na gruta. Basta um pouco de fantasia no pensamento. Pouco distante dali, no município de Morro do Chapéu (BA), vivia até a década de 1970, cerca de vinte famílias nas grutas areníticas, sendo que uma delas era destinada aos rituais de sacrifícios de pessoas que eram aprisionadas nas redondezas. Diante da prática medonha, a comunidade foi dispersa pela polícia e os líderes levados ao manicômio de Salvador, como relata Marechal Rondon (LINO, 1989).
O ar dentro da gruta é puro; a temperatura, a depender da menor ou maior intensidade de circulação do ar, tem caráter dinâmico. Encontram-se morcegos, conchas de caramujos da família Strophochelidae outrora carreadas pelas águas, ossadas de fauna acidental e troglóxenos (animais que, apesar de serem encontrados de forma regular nas cavernas, não são exclusivamente destes locais). Gota d’água por gota d’água, há milhares de anos, as paisagens cársticas e o relevo que envolvem grutas e cavernas são moldados. A marcação do tempo geológico não se dá por relógios.
Num universo como o das cavidades naturais, onde cada centímetro de formação espeleológica pode ter levado centenas de anos para existir, o tempo é amplo e quase infinito. Há variedade de aspectos morfológicos no Abrigo Santa Marta, a saber: paredes rochosas, fendas, estalactites e estalagmites, solo arenoso e argiloso, acúmulo de detritos orgânicos, guano de morcegos, represas secas de travertinos (que formavam pequenos lagos) e centenas de pinturas rupestres, incluindo formas humanas e zoomórficas, desenhos de círculos, de uma roda e de um sol voltados para o leste, peixes, répteis e mamíferos. Tanto fora como dentro da gruta, pequenas marmitas de erosão, morrotes areníticos erodidos e lapiás alveolares que lembram pilões. A parede calcária com pequenos buracos serve de morada para pássaros, morcegos, aranhas e opiliões. Um ecossistema perfeito, intocado, protegido por lei e pelos moradores locais.
Quase sempre permeia nas cavernas uma relação dialética entre bem e mal, dia e noite, sagrado e profano. Nas profundezas espeleológicas, a insuportável beleza das “estátuas” e flores de pedra, cortinas e colunas, é, para muitos, prova irrefutável da existência de um ser onipotente. Para outros, a perfeição do trabalho artesão diabólico ou mera ação da natureza. O fato é que, independentemente de explicação, a beleza comove em suas variadas formas e nos convida à exploração consciente. O enfoque fenomenológico pode trazer elementos para análises amplas de paisagens cavernícolas permeando racionalismos técnicos, científicos e econômicos e exercitando subjetividades na busca por um mundo melhor.
As questões que envolvem grutas e cavernas são controversas. Se por um lado se observam problemas de degradação e/ou atividades desorganizadas em algumas, por outro, vê-se a possibilidade de elaboração de plano de manejo espeleológico e de capacitação de agentes capazes de monitorar as atividades de visitação e preservação. Um plano de ação voltado ao turismo em sítios arqueológicos, grutas e cavernas necessita abranger diretamente todos os segmentos da atividade de modo participativo, como por exemplo, população local, turistas, professores, pesquisadores, guias especializados e demais atores sociais.
Considera-se a percepção humana como um pré-requisito para a obtenção de diferentes níveis de conscientização ambiental. Atuando em conjunto com os conhecimentos populares e científicos, sabe-se que esses elementos mostram forte potencial para que se promova a conservação da natureza. Como atividade consciente, o turismo é uma forma usada por visitantes de áreas especiais e protegidas, permitindo a percepção do ambiente e, desta maneira, a interpretação das áreas. Em maior ou menor intensidade, a interpretação gerada pela percepção ambiental é fator determinante no nível de conscientização dos visitantes, podendo alargar os horizontes e reduzir o nível de impactos negativos dentro de grutas e cavernas (HANAI; SILVA NETTO, 2005).
O Abrigo Santa Marta ainda não é aberto à visitação pública. Não por acaso, para que ocorram atividades turísticas é necessário muito planejamento, sendo também fundamental que aconteçam atividades de educação ambiental desenvolvidas no contexto do ecoturismo e do espeleoturismo. As práticas educativas devem focar nas propostas ligadas à questão do pertencimento. Um público bem específico se interessa por esse tipo de turismo. Entretanto, de antemão, deve-se reconhecer que grandes quantidades de pessoas ou grupos pequenos de visitantes (por ventura) insensíveis e com dificuldades de abandonar os hábitos urbanos (ou pelo menos não levá-los para a natureza) podem danificar os aspectos sobre o qual se sustenta o patrimônio espeleológico e arqueológico, tais como: formações espeleológicas, vegetação circundante, fauna e o inestimável testemunho espiritual de ancestrais representado pelas pinturas rupestres. Por isso, faz-se necessário ampliar a consciência da importância desse tipo de patrimônio continuamente, criando instrumentos educacionais e técnicos que sirvam efetivamente para a sua conservação.

REFERÊNCIAS

BELTRÃO, M. C. M. C.; DANON, J. A.; DORIA, F. A. M. A. Datação absoluta mais antiga para a presença humana na América. Rio de Janeiro: UFRJ, 1988.

HANAI, F. Y.; SILVA NETTO, J. P. Percepção e conscientização ambientais: alternativas para a preservação das cavidades naturais do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR). In: Simpósio Nacional sobre Geografia, Percepção e Cognição do Meio Ambiente. Anais... Londrina: UEL, 2005.

LINO, C. F. Cavernas: o fascinante Brasil subterrâneo. São Paulo: Editora Rios, 1989.

Muro de pedras próximo ao Abrigo Santa Marta, construído no período colonial.

Parede calcária do Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Pórtico da gruta Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Pórtico da gruta Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Aspecto interno do Abrigo Santa Marta. Estalactites.

Coluna. Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).



Travertino, estalactite e estalagmite no interior do Abrigo Santa Marta.

Conchas de caramujos da família Strophochelidae outrora carreadas pelas águas.


Aspecto da parede calcária com destaque para algumas pinturas rupestres (bovídeos).

 



Zoomorfos, grafismos e formas geométricas. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Zoomorfos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Zoomorfos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).



Zoomorfos e grafismos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).

Zoomorfos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).


Aspecto da parede calcária com destaque para algumas pinturas rupestres (grafismos).

Grafismos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).



Zoomorfos, grafismos e mãos. Pinturas rupestres, Abrigo Santa Marta, Iraquara (Bahia).




Paisagens do Vale do Capão, Chapada Diamantina (Bahia).
Fotos: Joviniano Netto. 24.08.2017.

Joviniano Netto. Foto: A. Rocha (2017).

terça-feira, 11 de abril de 2017

Um olho-míssil e o desejo na Academia

A exposição Olho-míssil, que (re)inaugurou o Espaço das Artes (antiga sede do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) foi marcada por uma série de tendências mundiais no campo das artes plásticas. Num momento em que a Prefeitura de São Paulo opta por cobrir de cinza diversos grafites feitos nas ruas da cidade, capital mundial desta modalidade de arte, um dos artistas da exposição leva para o espaço museológico sua caligrafia, sua força, sua coleção e seus grafites.
No mais autêntico estilo “bakhtiniano”, Danilo Bezerra expõe uma complexidade de linguagens dialógicas contemplando distintas visões de mundo e vozes no campo da arte contemporânea. Resgato o crítico russo Mikhail Bakhtin para enfatizar que a língua, carregada de ideologias e práticas, sendo usada pelos povos como materialização de processos físicos, fisiológicos e psicológicos, deve ser entendida no âmbito das relações sociais. E o que propôs o artista com as palavras grafitadas, neste contexto, foi um diálogo.
Visitei a exposição várias vezes. Havia lá a história do Partido dos Trabalhadores colada numa das paredes, esculturas inspiradas em seres marinhos, vídeos e projeções de brigas políticas e atentado terrorista, fotografias de realidades cotidianas, gravuras (algumas das quais servindo de estampa para tecidos nas imagens de pessoas nos metrôs e trens paulistanos) e grafites. Quase tudo à mostra!
A arte de grafitar existe desde o Império Romano e consiste em inscrições caligrafadas ou desenhos pintados sobre suportes que normalmente não são destinados à tal manifestação. Assim, a fachada lateral do Espaço das Artes foi grafitada com extintores de incêndio carregados de tinta preta, configurando-se numa ação transgressora. Acompanhei parte do processo e alguma movimentação que (diga-se de passagem), para um local de conflitos recentes entre estudantes e polícia militar dentro do campus, arena contra o autoritarismo e a favor de ocupações de blocos ociosos para residência e permanência estudantil, serviu para repensarmos novas formas de linguagem que efetivamente sirvam para o diálogo. Avesso à toda forma de violência na universidade pública, deve haver espaço para todos.
Passada a euforia da noite do vernissage, quando os postes deram lugar às luzes vermelhas e simultaneamente aconteciam várias festas dentro da universidade numa movimentação escandalosa (porém, pouco divulgada), não havia baderna no lugar. O clima favorável daqueles dias deve ter ajudado os alunos de graduação em artes plásticas a consolidar os encontros com grandes nomes da arte contemporânea brasileira, com referências da Filosofia e da crítica, compondo mesas de discussões sobre o panorama da arte e do papel do artista na sociedade.
Uma imensa quantidade de obras de arte guardadas numa espécie de parede falsa, com divisórias ocas, foi revelada através de dois buracos feitos em tais paredes. Embaixo de uma dessas aberturas foi grafitada a palavra “desejo”. Tratava-se, além de expressão de impacto, de uma valiosa reserva técnica, com obras de artistas nacionais e internacionais. Muitas sem assinatura, mas com um adesivo atrás indicando um número em cada uma delas.
Compreendendo a liberdade de expressão plástica, dia após dia a exposição foi tomando forma e sempre era acrescentado algo novo à instalação de Danilo Bezerra. Paulatinamente, verificou-se que não era uma instalação estática. Foram postas uma cadeira de observação elevada (daquelas que bombeiros usam nas praias), diversas garrafas cheias de água, outras frases e palavras grafitadas nas paredes, chegando quase próximas ao teto. Havia na instalação duas grandes telas com o fundo grafitado com a palavra “censurado”. Na descrição da obra o artista deixa evidente (ou insinua) que o trabalho fora censurado pela curadoria da exposição.
Acompanhado pela psicóloga e amiga moçambicana Aida Binze, pensei nas propostas e nos objetos expostos. A cada passo que dávamos refletíamos sobre os possíveis porquês daquilo. Tudo com valor fundamental da imaginação criativa. Num instante, movido pela palavra grafitada na parede, retirei do “buraco do desejo” uma das obras e a coloquei pra fora. Era uma pintura sobre madeira. Fiz um rabisco sobre um bloco de anotações e a fotografei. No caminho para o CRUSP (Conjunto Residencial da USP), encontrando duas gavetas velhas num entulho, já fora do museu, arranquei os fundos de madeira e reproduzi a imagem com pincel e tinta a óleo. Assinei. Guardei o número (da obra original) e a obra que fiz para, num possível encontro, presentear o artista da instalação e chegar a uma síntese da vivência. Afinal, seria o desejo um número censurado?
Noutra ocasião convidei um amigo para ir comigo visitar o espaço novamente e, para minha surpresa, as duas enormes telas (com o fundo grafitado “censurado”) que no início da exposição encontravam-se de costas entre os dois buracos, estavam à mostra de frente e os buracos tampados com elas. Tratava-se de uma cópia da “Grande Onda de Kanagawa”, do artista japonês Katsushika Hokusai. Se todo conhecimento se dá de maneira coletiva, não seria diferente no campo da arte. Estamos sempre inovando, fazendo releituras ou imitando os mestres. O encanto da pintura (enquanto coisa e ao contrário do grafite) está também no fato de ela poder ser levada para outros lugares e alcançar outros públicos na possível mobilidade. E por que não dizer, na posição das obras em relação às arquiteturas e às outras obras de arte. Ali, a Grande Onda revelada foi, sem dúvida, o grande destaque da exposição, pois além de bela e muito bem pintada, era (acima de tudo) uma construção baseada numa obra já existente.
Às vezes não existe a necessidade de conhecer os artistas pessoalmente, pois as obras falam por si, mas não me contive. Pesquisei uma fotografia de Danilo Bezerra no Google e o reconheci ao lado do Restaurante Central da Universidade. Me apresentei e pedi que ele me falasse sobre o seu trabalho na exposição Olho-míssil. Peguei a pintura que fiz, expus meu processo de criação (sem me preocupar com juízos de valores, pois, afinal, era resultado de algo censurado) e dei a obra pra ele. Disse que minha intenção era refletir e talvez redigir um texto sobre a mostra para um blog. Gentilmente ele me levou ao Espaço das Artes com o trabalho debaixo do braço. Eu que nunca tive sequer uma fotografia de minha autoria pendurada na parede (ou pelo menos nunca vi), estava lá com um dos autores da mostra dentro dos corredores “secretos” do prédio. Era um mundo encantado cheio de cores, luzes e cheiros (de tinta fresca). Havia uma rede de dormir e em outras paredes (não visíveis ao público) do interior do museu, mais grafites. Um dos mais envolventes era a palavra “índio”. Seguindo a lógica da sensação, me deitei na rede (herança indígena) e balancei meu corpo. Naquele momento, Danilo retirou da sacola um martelo, alguns pregos e cravou a pintura sobre a parede onde se encontrava o acervo. Era, para meu espanto, a única pintura pendurada lá dentro (todas as outras estavam empilhadas no chão). Talvez ele não tenha percebido a inquietude que senti naquele momento. Para além de minha ousadia, fiquei feliz por ele ter gostado.
Após fotografar nosso encontro e traçar um perfil de suas preferências criadoras, entramos no recinto público. Observamos em silêncio o cenário. Me falou da seriedade de seu trabalho, do que significa toda aquela linguagem e por fim, fomos embora. A última pergunta que ele me fez foi o que eu tenho para dizê-lo sobre a Amazônia. Eu respondi que iria pensar. Uma semana depois de nosso encontro a exposição chegou ao fim e a pergunta ficou sem resposta. Fascinado pela água, cheguei a divagar sobre a Amazônia em várias laudas, mesmo sem conhecê-la, inspirado apenas naquela instalação. Talvez seja mais um desejo a cumprir: conhecê-la.
Danilo Bezerra graduou-se em Artes Plásticas pela USP neste ano. Inacabado, como todos que se propõem a estar na linha de frente da arte contemporânea brasileira, mas com um caminho promissor e uma coragem incrível para criar. Os outros expositores, incluindo os da exposição “Pós-poéticas” (pós-graduação) que aconteceu simultaneamente foram: Alexandre Camanho, Anna Souza, Caio Righi, Daniel Suarti, Fernando Aidar, Isabella Finholdt, João Gonçalves, Julia Albuquerque, Juliana Araujo, Lívia Santos, Lola Ramos, Marcela Fleury, Mariana Utzig, Marina Castro, Marina Zilbersztejn, Paulo Delgado, Pedro Adario, Pedro Farah, Romeu Mizuguchi, Victor Jenhei (da exposição Olho-míssil) e Ana Tomimori, Andréa Tavares, Cassia Aranha, Filipe Barrocas, Inês Bonduki, Julia Mota, Juliano Gouveia dos Santos, Pedro Hamaya, Renato Pera (da exposição Pós-poéticas). Abaixo, algumas imagens:











 Trabalhos de Danilo Bezerra - Desejo de Amazonas.



 Resgate histórico de Lula e do Partido dos Trabalhadores, de Marcela Fleury.

Magma, de João Gonçalves. 







 Ataque às Torres Gêmeas, de Pedro Adário Gonçalves.



Interior do Espaço das Artes na Cidade Universitária.
Fotos: Joviniano Netto (2016-2017).

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Izrael Szajnbrum

Artista judeu polonês radicado no Brasil. Estudou na Escola Técnica Profissional Souza Aguiar, especializando-se em entalhações e na Escola Nacional de Belas Artes, tendo como professores Rodolpho Chambeland, Henrique Cavaleiro, Quirino Campofiorito e outros. Formou-se em Arquitetura pela Faculdade Nacional de Arquitetura e teve aulas de gravura com Carlos Oswald no Liceu de Artes e Ofícios. Empreendeu viagens pelo interior do Brasil, passando por Paraty, Ouro Preto, Congonhas, Salvador, dentre outras cidades, desenvolvendo importantes pinturas, muitas feitas ao ar livre.

Participou da Primeira Bienal de Arte de São Paulo expondo sua obra intitulada “O Mercado”. A exposição contou com a participação de artistas do quilate de Cândido PortinariAlfredo Volpi, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, José Pancetti, Iberê Camargo, Aldo Bonadei, Antônio BandeiraVictor Brecheret, Edi Cavalcanti, Lasar Segall, Bruno Giorgi, Oswaldo Goeldi e outros tantos importantes nomes da história da arte brasileira.

Izrael Szajnbrum dedicou-se exclusivamente à pintura, desenho, gravura e escultura. Algumas de suas obras encontram-se na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, no Museu Adolfo Bloch, no Museu de Congonhas (MG), na Sinagoga Talmud Torá (RJ), na Biblioteca Bialik (RJ), na Escola Sholem Aleichem (RJ), no Banco de Expansão Industrial do Rio de Janeiro, e em coleções particulares no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.
Fundada na primeira metade do século XVII, elevada à categoria de vila em 1660 e de cidade em 1844, Paraty possui um dos mais belos conjuntos arquitetônicos coloniais do Brasil. Tombada por meio dos Decretos 1450 de 18 de setembro de 1945, do governo do Estado do Rio e Janeiro e do Decreto 58077 de 24 de março de 1966, do governo federal, a cidade foi redescoberta a partir da criação da BR 101, após o ano de 1973, e desde então vem passando por diversas transformações culturais, sociais e econômicas que são, inevitavelmente, refletidas numa nova visão do conjunto colonial.
A obra de Brum é um documento vivo de como era parte da Igreja Santa Rita, onde também funciona o Museu de Arte Sacra de Paraty, e da rua Santa Rita em 1974, ano em que realizou a pintura que ilustra este texto. Nesta década foi construída a estrada que circunda a cidade próxima ao mar, sendo realizados também alguns aterros no centro histórico que, infelizmente, modificaram o hábito de entrar na cidade com pequenas canoas pelas ruas nas marés cheias. Mesmo assim, Paraty ostenta um dos mais significativos conjuntos da arquitetura do período colonial do Brasil.


 Izrael Szajnbrum, 1974. Óleo sobre tela. 65 x 45 cm. 
Coleção particular. São Paulo, Brasil.
Foto: Joviniano Netto.

REFERÊNCIAS

AYALA, Walmir. Dicionário de Pintores Brasileiros. Edição revisada e ampliada por André Seffrin. Curitiba, Ed. da UFPR.

BRASIL. Decreto 58077 de 24 de março de 1966.

Catálogo da I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Enciclopédia Itaú Cultural: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa23388/izrael-szajnbrum

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Apresentação de Antônio Houaiss. Textos de Mário Barata et al. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

RIO DE JANEIRO. Decreto 1450 de 18 de setembro de 1945.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Semana Global de Alfabetização Midiática e Informacional - Rede UNESCO-UNAOC MILID UNITWIN

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) tem desenvolvido importantes projetos, iniciativas, movimentos e esforços para melhorar a vida das pessoas e favorecer um mundo melhor. O tema “Alfabetização Midiática e Informacional: novos paradigmas para o diálogo intercultural” é atual e extremamente necessário. Sendo um evento global realizado aqui na Universidade de São Paulo nesta semana, me inscrevi para participar da VI Conferência da Rede UNESCO-UNAOC MILID UNITWIN e teço abaixo algumas opiniões ligadas ao tema de maneira direta ou indiretamente. A USP é uma das universidades-membros que compõem a rede internacional de universidades MILID, cujas pesquisas feitas em parcerias buscam capacitar as pessoas no campo da alfabetização midiática e informacional e reforçar sua participação por meio de sistemas livres e independentes.
Entender a alfabetização como o domínio formal da tecnologia, da mídia e da informação em sua forma primária, tem sido fundamental para a cultura na complexa conjuntura que diz respeito não apenas às fronteiras entre natureza e sociedade, mas também à emancipação do sujeito. A relação da humanidade com a tecnologia sempre foi, ainda que em proporções desiguais, desde os tempos imemoriais, simbiótica. Ao serem moldadas as técnicas e ferramentas, como num eco, somos também moldados; e isto é refletido no nosso dia-a-dia.
Aparelhos eletrônicos digitais parecem constituir parte de nossas redes neurais e sentidos. Há quem não consiga ficar sem um celular, sem acesso à internet e mesmo sem uma televisão ou rádio. Uma avalanche de informações é a cada minuto lançada no universo midiático e informacional e precisamos lidar com isso, pois pode ser desgastante, ainda mais em momentos de trabalho e lazer, se deparar com dados inesperados e desagradáveis.
Todavia, como usar a informação que nos chega para, na prática, transformar nossas vidas? O que aproveitar? Empoderar-se e empoderar pessoas por meio da alfabetização midiática e informacional é um desafio, mas o primeiro grande obstáculo para isto é que não é tarefa fácil, num país subdesenvolvido, suprir a necessidade de aparelhos digitais, ainda caros e inacessíveis para a maior parte da população. Muita gente no Brasil sequer sabe ler e escrever. Lembro-me bem que, apesar disto, quando atuei num projeto de capacitação para alfabetizadores no interior da Bahia em 1999, meus alunos da terceira idade e tutores do curso realizado na Universidade do Estado da Bahia, já se mostravam interessados pela globalização da informação e pela até então utópica possibilidade de acesso ao mundo virtual da comunicação, que na época era apenas anunciada na TV. A utopia virou realidade e a geografia da internet no Brasil se ampliou vertiginosamente. Os pilares e as dinâmicas desse fenômeno foram discutidos noutra ocasião, em curso promovido pela Associação dos Geógrafos Brasileiros em 2004 durante um Congresso Brasileiro de Geógrafos, em Goiânia. O acesso à tecnologia, à informação e aos dados disponíveis na rede cresce em todos os cantos do mundo. À última geração pode parecer que toda essa tecnologia é antiga e há muito faz parte de nossa sociedade. Nascemos com a necessidade de comunicação e nossos perfis na internet são quase como registros de nascimento.
A Conferência que começa hoje e a primeira Assembleia Geral da GAPMIL, com a aguardada Declaração de São Paulo sobre Alfabetização Midiática e Informacional, poderão nos auxiliar na elaboração de projetos mais ousados, sem dúvida. A partir de uma declaração e dos resultados de eventos como estes, analisados à luz das propostas e dos avanços das outras edições passadas, ter-se-á um norte a seguir na proposição de ideias e políticas públicas inclusivas no campo da mídia e da informação.
O que Fez, Barcelona, Cairo, Pequim, Filadélfia e São Paulo tem em comum além de serem grandes cidades inseridas no turismo internacional? - Elas sediaram, desde 2011, edições desse importante evento criado pela UNESCO. Pesquisei e encontrei iniciativas em alfabetização midiática e informacional nos países onde se localizam essas cidades. São vários os exemplos de esforços observados aqui na Universidade e em outros lugares do Brasil.
Uma das propostas de projeto voluntário de educação ambiental crítica que iniciamos há alguns meses na cidade de Americana, interior do estado de São Paulo, em consonância com as declarações das conferências passadas, aponta para a necessidade das pessoas exercitarem a criatividade e usar as redes complexas de maneira crítica, de modo a, junto ao Poder Público e outras entidades, contribuir para a melhoria da qualidade do lugar, uma unidade de conservação de proteção integral que se configura em diversos aspectos como área de conflito. Fotografar, filmar, gravar depoimentos e compartilhar isso em canais importantes de comunicação é uma forma de pressionar as autoridades a cumprirem os princípios de desenvolvimento sustentável; além de chamar a atenção para a comunidade local, que é estimulada a criar mídias e obras para serem expostas em dois momentos do projeto. A ação faz parte de um processo de empoderamento.
Outra experiência que está ligada à alfabetização midiática e informacional e ao empoderamento dela decorrente é a dos tibetanos. Estes têm usado a internet para mostrar sua cultura milenar e, lamentavelmente, as atrocidades cometidas pelas autoridades policiais chinesas em sua nação. Destruição de templos religiosos, torturas, perseguições e assassinatos são amplamente fotografados, filmados e transformados em mídia instantânea para todo o mundo. Informações são compartilhadas por sites importantes e pela sociedade civil organizada. Se como indivíduos, pouco podemos daqui fazer, além de rezar pela paz, efetuar doações monetárias e assinar petições públicas, pode-se ampliar a informação, fazê-la chegar aos que transitam pelo espaço cibernético em todo o mundo e formar opiniões. A história de muitos países foi escrita por uma elite minoritária e, entretanto, com o advento e desenvolvimento da tecnologia da informação no atual estágio, qualquer pessoa pode ser autora da própria vida e (re)escrever a história do lugar onde vive.
Quando nos dispomos a estabelecer redes virtuais, não apenas adicionando, aceitando contatos ou compartilhando conteúdos sobre diversos assuntos nos mais distintos canais da internet, estamos nos abrindo para um mundo ainda desconhecido e recente. Passamos a compartilhar desejos, gostos, visões, opiniões e, desta forma, a propor uma outra narrativa, um outro paradigma. Passamos e mostrar alguns modos de vida e a tomar conhecimento de outros. Esse diálogo intercultural é rico e desejável em todo o planeta. Vivemos em redes físicas e digitais onde o que mais se quer é a interação.
O acesso à informação tem sido cada vez mais democrático, mas ainda está longe de alcançar patamares ideais. Se buscarmos informações ou mídias sobre determinado assunto, a depender do canal de busca, normalmente pesquisamos por palavras-chave no idioma de interesse. O resultado de busca no Google, citando um dos mais importantes canais de pesquisa do mundo, é um leque indescritível de informações, culturais, artísticas, científicas ou de qualquer outra natureza. Eis a questão: o que fazer com isso e como empreender?
Com acesso à internet dá para explorar infinitas possibilidades de formação de redes. Por meio da análise de gráficos de acesso a este blog, por exemplo, é possível verificar qual aparelho foi usado para acessá-lo e qual a localidade. À distância do espectador e pela internet é possível apresentar parte do cotidiano e da vida, ensinar, aprender, conhecer experiências e se inspirar. Por meio do acesso às redes e às pessoas a elas conectadas pode-se envolver em diversas questões específicas ou gerais, trocar ideias, militar por uma causa e ampliar o campo de visão na vida prática.
É possível realizar cursos, superiores inclusive, à distância do espaço físico da escola com acesso à internet. Alguns são gratuitos e para isto basta um aparelho que possibilite fazê-lo. Obviamente que nada se compara ao encontro real, mas na impossibilidade, a importância da rede virtual é, por si só, muito grande e indiscutível. A complexidade dos fenômenos requer que não seja excluída a complementaridade entre os fatores.
O mundo está se tornando digital. O analógico está virando coisa de museu, de entusiasta, de artista, de colecionador. Hoje em dia criamos a arte, a fotografia, o livro virtual, a postagem, o videogame. Levantamos, elaboramos a informação e a transformamos em arquivos (relatórios, álbuns, ensaios, multimídias etc.). Quando disponíveis on-line, a depender das categorias de linguagem e dos tipos de suporte, podem ser estabelecidas comunicações efetivas entre o “criador do produto” e o “consumidor” em qualquer lugar da Terra. A arte digital e seus processos de restauração exigem, por seu turno, muito mais do que a alfabetização.
Surge então a necessidade do monitoramento e aperfeiçoamento contínuos. A julgar pelos temas que serão tratados, evidencia-se ainda mais a importância de uma conferência como esta que acontece aqui na USP e que tem como ponto de partida o primeiro contato com o universo midiático e informacional, a chamada “alfabetização”.
Matematicamente, a rápida dinâmica das linguagens digitais requer conhecimentos técnicos, conceituais e específicos, que transformem o obsoleto no novo com base em programações algorítmicas mais inteligentes capazes de recriar as bases de dados e de serem analisadas por diferentes ângulos. Apenas para ilustrar, o mercado de videogames é um dos que mais faturam no mundo. Os aplicativos interessantes e acessíveis ao público também se constituem num excelente filão do mercado na atualidade. Já chegamos a imaginar para diversos lugares, sempre incluindo como produto de projetos “acadêmico-científicos”, formais ou voluntários, o quão eficiente seria a criação de um game ou aplicativo que mostre a história e curiosidades animadoras capazes de amalgamar o usuário da mídia com o lugar representado. Uma cidade histórica, um parque natural, um ambiente cultural.
Como superar um paradigma e avançar? Somos referência em tecnologias da informação e brasileiros são criativos no que fazem, mas quase sempre nos esbarramos na falta de recursos humanos e financeiros para a realização de projetos. Diálogo é uma maneira de ação e nosso papel como educador é, em todo caso, o de propositor, ainda que não levemos as ideias até o fim.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Dia Mundial da Fotografia

Comemora-se hoje, 19 de agosto, o Dia Mundial da Fotografia. A data foi escolhida por ter sido, em 1839, anunciado na Academia de Ciências da França o primeiro processo fotográfico com o uso do daguerriótipo. Tal processo consiste na obtenção de imagens fotográficas por meio de placas de cobre ou outros metais revestidos com prata e expostos à luz, dando origem a uma superfície espelhada e posteriormente, com a retirada dos resíduos deste revestimento com betume, iodeto de prata ou soluções salinas, fixando-se a imagem. A sensibilidade das placas e a fixação foram aperfeiçoadas ao longo do tempo e hoje são utilizados diversos processos, sobretudo na criação de fotografias artísticas exclusivas. Fotografar é desenhar com a luz. Os pioneiros foram os franceses Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) e Louis Daguerre (1787-1851).
Dentre outros, dois dos grandes fotógrafos modernos que merecem ser destacados como referência são o francês Henri Cartier Bresson e o brasileiro José Juliani. Este último, considerado o grande fotógrafo de frente pioneira do norte do Paraná (Brasil).
Artes em destaque: Foto mais antiga tirada por Joseph Nicéphore Niépce por volta de 1826.
Primeira fotografia bem-sucedida (natureza-morta) tirada por Louis Daguerre em 1837.